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Algo de novo no frontAugust 02 O conto do super-heróiDigamos que um dia você acordasse e descobrisse que tem um super-poder. Qual seria a sua reação? Usá-lo para se divertir? Combater o crime? Tornar-se um super-vilão?
Bem, a minha opção foi escolher não usar esse poder para ser herói.
Eu poderia pensar em um início glorioso para essa história, mas a verdade é bem menos gloriosa. De repente vi que meu super-poder se manifestou assim, sem eu perceber, quando eu era um adolescente comum. No início ninguém notou. Mas eu notei. A diferença era sensível. E conforme o tempo passou, entendi que esse poder já fazia parte de mim. Entendi a sua real dimensão, percebendo que eu conseguia consolidar em minhas mãos e inclusive percebi como isso, se usado de determinada maneira, me faria conquistar o mundo.
E por isso eu disse não ao uso desse super-poder.
A gente nunca pensa em como a renúncia ao poder pode ser um ato de heroismo, talvez o último ato de altruismo dos seres humanos. Mas eu pensei. E optei por não usar dessa força sobre-humana.
Meu super-poder?
Magoar os outros.
E depois que se aprende a usar esse poder, tudo pode ser conseguido. É talvez o maior poder de todos. Teletransporte, poderes de cura, metamorfoses, vôo, força... Nada supera a dor de um coração partido. O Super-Homem, por exemplo, tem duas fraquezas: uma, a criptonita. A outra, a sua Fortaleza da Solidão, aonde se esconde da humanidade e busca refúgio para seus sentimentos confusos em relação às pessoas. Batman isola-se em sua Bat-Caverna. O Homem-Aranha foge de relacionamentos. Os super-heróis são todos suscitíveis ao super-poder que eu possuo. E mesmo os vilões que não são suscitíveis a uma traição, ou a uma mágoa, são aqueles psicóticos. E, portanto, já estão nitidamente desumanizados.
Com esse tipo de super-poder, que tipo de "criptonita" existe?
Ora, são aquelas pessoas que realmente acham que sou realmente legal. Elas não entendem que no fundo eu só estou evitando de usar meus super-poderes e não quero ser "pau no cu" com ninguém. Isso não teria nada de heróico e valoroso. No fundo, eu desejo usar meus poderes. É como o código de ética de muitos heróis, que impedem que eles usem seus poderes para matar. Eu não. Só não quero usar meus poderes para magoar ninguém.
No final das contas, sei que serei subvertido por uma força apocalíptica, algo que me levará para o "dark side" da força. Tornarei-me um vilão. Todos aqueles que me acham legal serão destroçados pelos meus poderes, farei as lágrimas saírem de seus olhos - que tanto admiraram o fato de eu ser legal.
Mas até lá...o super-poder continuará desativado. E eu continuarei como super-herói, não usando meu poder para o bem. July 25 Uma pizza...mezzo católica, mezzo protestanteE as definições entre católicos e protestantes vão aumentando...é reveladora essa tipologia weberiana de sociedade. Às vezes ela realmente faz sentido!
Protestantes:
Xinga o juiz.
Católicos:
Xinga a mãe do juiz.
Protestantes:
Karatê Kid.
Católicos:
O Tigre e o Dragão.
Protestantes:
The Clash
Católicos:
Elvis
Protestantes:
Capitão Nascimento
Católicos:
Batman
Protestantes:
Cuspe
Católicos:
KY
Protestantes:
Contra as cotas.
Católicos:
A favor das cotas sociais apenas.
Protestantes:
Paulistas.
Católicos:
Mineiros.
Protestantes:
Vodka.
Católicos:
Cerveja.
Protestantes:
Mortal Kombat
Católicos:
Street Fighter
Protestantes:
Falou!
Católicos:
Beijo, me liga! July 07 Perdendo o passado...Por conta das circunstâncias, fui obrigado a refletir sobre o passado. Não se trata do passado institucionalizado e congelado pelos historiadores em um texto. Mas do passado-memória, aquele passado que pertence aos indivíduos, que é vivo na mesma proporção em que ele é sentido.
O problema é que esse passado vivo é passível de ser perdido e muitas vezes não nos damos conta disso. Acreditamos apenas no acúmulo do passado, das experiências, dos sentimentos. Concebemos que todo passado é possível de ser preservado. Basta contratar um historiador. Mas...o passado deixa de ser vivo, torna-se uma narrativa muitas vezes empolgante. Mas é uma forma material, dura. Às vezes é perfeita em descrição. Mas falta-lhe a essência que lhe deu vida.
Mas, sem aceitarmos a narrativa do historiador e sem aceitarmos que o passado vivo seja congelado, temos que nos adaptar a idéia do passado perdido. Mas então, como perdemos o que faz parte de nós?
Há pelo menos duas formas...Uma delas é o passado perdido voluntariamente. A idéia de que nossa vida é um amontoado de eventos incoerentes ignora as nossas próprias tentativas de dar coerência a ela. E ignora principalmente as nossas tentativas de esconder partes de nosso passado que nos constrangem no presente. No final, nossas tentativas de dar coerência são também históricas, mas nem por isso são inválidas. O que elas fazem é exatamente avaliar o passado com olhos do presente. E quando esse passado não nos interessa, suprimimos ele, fazemos questão de "perder esse passado", de enterrar parte de nós. Os historiadores, que possuem um compromisso com a verdade, não se contentam com a supressão do passado vivo. Mas, no fundo sabem que essa é a prática padrão das trajetórias de vida...
Há ainda uma outra forma de perder o passado vivo que é o passado perdido involuntariamente. Quando o passado vivo se cristaliza em pessoas, fotos, cartas...enfim, quando há uma concretude no vivido. Nesse momento, o passado vivido concreto está suscitível à deterioração do tempo. As pessoas morrem, as fotos se apagam, as cartas são devoradas pelas traças. A memória guarda tudo isso...mas a memória também é falha, ela se apaga. A memória se perde e aquilo que lhe desperta, sem ter uma existência concreta, não consegue ser efetiva. Quantos sabores, cheiros e cores se tornaram apenas sombras na minha memória por nunca mais poder reproduzí-los em minha vida?
Perdemos partes de nosso passado cotidianamente porque lembrar de tudo é tão impossível quanto esquecer de tudo. Mas é quando temos consciência de que perdemos o passado - intencionalmente, ou não - é que as angústias se acumulam. Quando se percebe que a memória não pode ser mais resgatada, quando não há posteridade para salvar o passado. E no entanto, é nesse angustiante momento que se percebe a necessidade de buscar o passado, vivo, eternizado nas experiências. É somente quando ele é perdido é que pode se pensar em resgatá-lo. June 30 Santa Segunda-FeiraExistia uma tradição em vários países cristãos antes da Revolução Industrial de que a segunda-feira não era dia de trabalho porque era um dia santo. Pensar que o dia que Garfield mais odiava era apenas uma extensão dos finais de semana pode parecer chocante.
As segundas-feiras chuvosas e cheias de neblina, tão modorrentas a quem tem de caminhar, pegar ônibus, enfrentar o trânsito e o mau humor: subitamente as segundas são preenchidas por uma onda de preguiça e pachorra. Parece quase um sonho.
Será que a humanidade era mais feliz quando realmente tinha a segunda-feira livre? Será que seríamos mais felizes com um dia a mais, dedicado exclusivamente ao louvor do próprio dia?
A sacralidade de um dia faz pensar não na possibilidade de não trabalhar nele, o que para nós habitantes do século XXI já seria uma grande vantagem. Mas pensar em um dia dedicado somente ao seu usufruto parece impossível. Ameaçados de todos os lados pelo desemprego, pela fome, pelos preços, pelos baixos salários, pela insegurança urbana, pela guerra, pela corrupção, pela falta de saúde, pela ignorância, pelo que nos cerca e, às vezes, até mesmo nos sufoca. Como aproveitamos o tempo livre!?
Devo admitir que essa reflexão e, por que não dizer, esse desejo nostálgico sobre a Segunda-Feira Santa só poderia ter saído de uma segunda-feira chuvosa, com neblina e modorrenta. Só poderia ter vindo de uma mente que divaga ao olhar tantos rostos descontentes, tanta miséria, tanta insensibilidade perdida no concreto. E, antes que eu fizesse parte dos tons de cinza dessa segunda-feira, mergulhei em meio à apologia da Santa Segunda-Feira.
Termino esse dia convencido: Seria uma prova de evolução humana a luta pelo retorno da Santa Segunda-Feira.
May 26 A moral da história..."Quanto mais eu acredito na humanidade, menos eu acredito nas pessoas." (autor desconhecido)
A moral da história é vovó comeu biscoito. Essa piadinha nonsense de crianças ainda tem o seu sentido. Não porque a vovó pode, ou não, comer biscoitos. Mas sim porque a moral da história está sempre presente. Enquanto vivemos, de fato, fica difícil encontrar uma moral própria da vida, da humanidade, um sentido universalmente reconhecido. Mas, sem a moral, como atingir uma nova sociedade?
Pensar, por exemplo, em uma sociedade onde a liberdade começaria com a proibição de interromper a liberdade alheia, como levantavam as bandeiras de maio de 68 exige uma moralidade. Moralidade essa construída por seres humanos, por uma concepção de que a humanidade (como sujeito coletivo e transcendental) não existe por si só, mas sim através do que ela mesma estabelece como seus parâmetros universais. Quando o velho barbudo lembrava, no século XIX, como as formas mistificadas de dominação foram derrubadas pelas transformações da nascente burguesia, não estaria ele mesmo ressaltando uma espécie de abolição das concepções de moralidade de outras formações sociais? Critique o que se quiser no velhinho, mas nesse ponto ele acertou no ângulo: o capitalismo criou a primeira moralidade universal de toda a história, a moralidade do capital, que nega todas as outras.
Esse aspecto revolucionário do capitalismo criou as condições para que, pela primeira vez, se pensasse em uma moral universal, que consiga ligar Porto Alegre a um vilarejo em Kinshasa. Uma moral que consiga, de certa forma, criar vínculos inéditos entre um francês, um mexicano, uma japonesa, um cambojano, uma dinamarquesa, um senegalês, uma israelense, um americano, uma cubana... A grande sacada de se pensar em uma classe trabalhadora universal, pressuposto do próprio capitalismo em sua expansão, é construir essa transcendência quase que empiricamente. Em todo o espaço, independente das particularidades, das culturas, das experiências, há um elemento que rege a vida de todas essas pessoas, inclusive sua própria moralidade: o capital.
No entanto, o capital é a sua própria negação enquanto elemento de moralidade. Como aspecto que dá sentido à existência, a sua acumulação pura e simples se reflete na auto-destruição de seus próprios valores morais. Ao mesmo tempo em que ele garante a universalidade, ele constantemente se propõe a negar essa universalidade. Ele se propõe ao relativismo da própria universalidade que ele constrói porque, de outra forma, ele estaria afirmando um laço indestrutível entre todos os homens. Ele precisa negar a força de seu criador, que reside exatamente nessa possibilidade de uma moralidade universal que, inclusive teria o poder de negá-lo como destruidor.
A moral da história, mais do que um sentido pré-definido, é uma moral a construir. É uma concepção que dê sentido universal à humanidade, que vise transformá-la, enfim, em humanidade. Que termine, por fim, a revolução começada no século XIX, de transformar as pessoas em um sujeito coletivo, transcendental. May 09 O inferno são os outros...O inferno são os outros...
É o teu olhar...
É a tua evasão...
É a tua voz...
O inferno são os outros...
É a apatia deles...
É a mediocridade de todos...
É o silêncio da multidão...
O inferno são os outros...
A tua hipocrisia...
A tua frieza...
O teu desprezo...
O inferno são os outros...
O tédio alheio...
O descaso na tela da tv...
A banalização na capa do jornal...
O inferno sou eu!
Que não aceito tua indiferença!
Que não tolero a massificação!
Que não me conformo. E só.
"A solidão não depende de estar sozinho. A solidão depende, na verdade, da multidão que te ignora. E daquela menina bonitinha que nunca vai te dar bola." April 21 O duelo entre o homem-idéia e o homem-livroRecentemente li o romance "Os Demônios", sabendo já dos usos que verdadeiros refugos da Guerra Fria dão a essa obra de Dostoievski. Chamando-o de profeta sobre o socialismo, verdadeiros fósseis com saudades do macarthismo resolvem dar ao caráter ideológico do romance uma dimensão tão grande que esquecemos a trama para centrar-se nos detalhes.
Dostoievski faz um retrato sobre os movimentos niilistas russos do período, que ora se aproximaram da Internacional dos Trabalhadores, ora se aproximaram do gangsterismo político. A tônica do romance de Dostoievski é um olhar crítico sobre a possibilidade de revolução em um século cada vez mais turbulento e transformador, como era visto o século XIX. É irônico que muito se fala sobre o romancista russo e sua crítica, mas pouco se fale sobre a crítica de Emilé Zola, em o Germinal. Talvez porque a crítica de Zola seja menos niilista que a de Dostoievski, mas possivelmente porque o romancista francês aponta ainda uma alternativa ao caminho da revolução. Dostoievski o nega da forma como vinha sendo pensada pelos russos.
Convencionou-se a dizer que Dostoievski profetizou Hitler, Stalin, Mao-Tsé Tung entre outros no romance. Mas Dostoievski era um gênio literato em um tempo muito definido. A sua crítica não tem tom profético, exceto, é claro, para aqueles que pensam que a tirania pode surgir somente de uma idéia. Dostoievski não se opõe à idéia no romance, mas, ao contrário...ele se opõe ao "homem-idéia". Em suas mais diferentes relações, seja o intelectual esnobe de classe-média que fala francês, seja o revolucionário que aceita matar em nome de uma causa, ou o líder político que diante da total falta de habilidade se torna submisso à esposa. São todos homens possuídos, no final das contas, pelo demônio. O demônio, nesse caso, acaba sendo a metáfora bíblica do demônio Legião, que manifesta-se sobre um homem e é exorcisado por Cristo. Possuído pela idéia - independente de qual fosse - segue a sua vida tal como a idéia, absorve-se nela, deixa toda sua subjetividade ser engolida pelo ideal.
O "homem-idéia", que acata calado a ideologia, a digere e permite que ela lhe roube toda sua subjetividade é um modelo ideal, criticado por Dostoievski, mas que faz muito sentido. Pensamos apenas nos regimes autoritários diante dessa questão, mas o mundo moderno do século XIX que o romancista russo estava vivenciando era um excelente exemplo de como, no final das contas, "a ideologia roubava a alma dos homens", os possuindo.
Não creio, no entanto, que o "homem-idéia" tão massificado como vê Dostoievski, possa realmente existir. No fundo, há aquela subjetividade única onde existimos e pensamos, nos revelamos além do que a idéia consegue encobrir. E isso me levou a pensar sobre o filme (baseado no romance de Ray Bradbury) Fahrenheit 451, dirigido por Truffaut. A trama é conhecida, onde num futuro totalitário, os livros são proibidos. No entanto, um grupo conseguiu uma forma de resistência interessante contra o arbítrio do governo: uma colônia de "homens-livro", pessoas que passam a ser identificadas com os livros e que são treinadas para recitá-los oralmente.
O interessante é que a trama de Bradbury indica os "homens-livro" como uma forma de resistência contra os "homens-idéia" que Dostoievski tanto parece criticar. E, melhor ainda, o personagem central se transforma de um "homem-idéia" (um bombeiro a serviço do Estado para queimar os livros) para um "homem-livro". É possível a transformação de um "homem-idéia", ele não está perdido, tendo sua subjetividade engolida. E, melhor ainda, diferente do possuído bíblico, ele não depende de Cristo para livrar-se do demônio que o subjulga. Ele mesmo é capaz de exorcisar seu demônio, capaz de enfrentá-lo, questioná-lo. De trazer o ideológico para o plano real, confrontá-lo e, talvez até mesmo destruí-lo.
Talvez esse seja uma importante lição aos movimentos emancipatórios...pensar mais em homens-livro e menos em homens-idéia. |
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